sexta-feira, 11 de setembro de 2026

LULA E O DILEMA ENTRE SOLTAR A MÃO DE MORAES E DEFENDER A FÉ NAS INSTITUIÇÕES

 

Em meio à crise no STF (Supremo Tribunal Federal), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, candidato à reeleição, tenta modular um discurso que, ao mesmo tempo, seja forte o suficiente para se contrapor ao crescimento recente de seu principal adversário, o senador Flávio Bolsonaro, e não sirva para instigar ainda mais o conflito que tomou o noticiário nas últimas semanas, com grande influência na campanha. Esse foi o dilema central discutido pela executiva do PT e por coordenadores da campanha petista nesta quinta-feira, 10.  A ideia era afinar o discurso de modo a não deixar Lula a reboque das operações policiais ou de outras decisões da corte que podem vir pela frente.

Até agora, o discurso contra o sigilo das investigações é considerado o que melhor se encaixou nesse propósito, na opinião de aliados. “Foi uma resposta boa na reação à crise porque ele passou a jogar em uma posição acima de tudo que está ocorrendo”, avaliou um integrante do governo. “Foi um jeito de entrar no assunto sem se amarrar a um lado ou outro”, emendou. “O ideal seria que essa crise não estivesse acontecendo porque vai chegar o dia da eleição e ninguém olhou direito para os candidatos. Isso é ruim para nós”, disse outro aliado.

A posição pela derrubada total do sigilo, porém, também tem suas vulnerabilidades. Ao defender transparência total para os autos do escândalo do Master, com críticas ao que chama de “vazamentos seletivos”, Lula abre o flanco para seus rivais questionarem por que ele não defende a mesma medida para as investigações sobre as fraudes no INSS, que incluem seu filho mais velho, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, investigado por tráfico de influência.

Outro fator importante é o ponto ideal da estratégia para se descolar de Alexandre de Moraes. Em entrevista ao SBT nesta quinta, o petista voltar a defender que se investigue tudo, o “doa a quem doer”. “Se o Alexandre de Moraes é culpado, ele tem que pagar”, disse, acrescentando um elemento novo ao discurso que pode indicar o início do processo para “soltar a mão” de Moraes. O presidente defendeu que é preciso optar entre “ser rico” ou ser ministro do STF. “Quem quiser ser da Suprema Corte não pode querer ser rico. Se quiser ser rico, vai trabalhar no seu escritório [de advocacia]. Se quiser ser juiz, com método e respeito, vai para a Suprema Corte”, afirmou. “Os membros da Suprema Corte têm que ter um comportamento acima da média da população brasileira, porque eles são referência, os guardiões da democracia, da Constituição”, disse ainda.

Risco de derrota
Na reunião da executiva, petistas consideraram que Lula corre risco real de perder as eleições para Flávio Bolsonaro e fizeram cobranças ao presidente do partido, Edinho Silva, para que o presidente “saia da defensiva”. Pelo menos duas decisões foram tomadas. A primeira é partir para o ataque a André Mendonça, na tentativa de reforçar o discurso de que ele estaria agindo por motivação política. A outra é defender um mandato fixo para integrantes dos tribunais superiores, algo que Lula já vocalizou pouco depois na entrevista ao SBT.

Também houve queixas quanto à organização da campanha. “É evidente que tem erro”, reconheceu Edinho Silva ao final da reunião. “Se a realidade muda, a campanha tem de estar alinhada à realidade”, defendeu. O presidente da fundação Perseu Abramo, Alberto Cantalice, buscou mobilizar a militância nas redes. “Campanha mesmo curta não é corrida de 100 metros. É maratona. A crise sobre o STF refletiu desfavoravelmente para Lula, por ser ele o presidente. Sendo assim, o batalhão de notícias negativas da última semana produziu variações na margem de erro em desfavor da nossa candidatura. Isso não é motivo para baixarmos a guarda nem demonstrarmos rendição. O chamamento é à luta pelo Brasil. Vamos vencer!”, escreveu o dirigente da entidade que funciona como um think-tank do PT.

(PLATOBR)