“A votação está aberta. As senadoras e os senadores já podem votar.”
Eram 19h07 — 7 e 7 da noite — de uma quarta-feira que entraria para a história, sem exagero no clichê: 29 de abril de 2026.
O plenário do Senado, com 77 dos 81 senadores presentes, além de um punhado de deputados, assessores e dezenas de jornalistas, mergulhou em silêncio.
“Foi um silêncio muito atípico”, comentou um funcionário com anos de casa.
O senador Márcio Bittar (PL-AC) resumiu a tensão: “Meu coração está acelerado”. Na véspera, ele participou de uma reunião a portas fechadas em que Flávio Bolsonaro avisou a senadores da oposição que Davi Alcolumbre (União-AP) estava com eles e que o dia seguinte seria “histórico”, como esta coluna antecipou.
Sete minutos depois — 7 de novo —, no instante seguinte ao sussurro de Alcolumbre antecipando o desfecho a Jaques Wagner (PT-BA), líder do governo Lula no Senado, o resultado apareceu no painel: Jorge Messias e o governo Lula estavam derrotados, com 34 votos favoráveis, 7 — o número voltaria a se repetir — a menos que o mínimo necessário.
Antes disso, Davi Alcolumbre demonstrava mais agitação que o habitual. Tinha pressa, depois de quase cinco meses, para votar a indicação de Lula ao STF. Cobrava presença e atenção dos pares.
Na hora do resultado, cenas confusas no plenário. Deu para ouvir o palavrão eufórico do líder da oposição, Rogério Marinho (PL-RN), que ocupava uma das cadeiras da mesa da presidência do Senado e se levantou de imediato, com punhos cerrados.
A compreensão do que havia ocorrido veio com certo delay. As reações de lamento e de festa surgiram como em câmera lenta.
Dezenas de jornalistas se amontoaram ao redor de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), possivelmente o primeiro a deixar o plenário. Sereno, como se já soubesse do resultado, ele seguiu sem a pressa de Alcolumbre, algo que se repetiria ao longo do trajeto até seu gabinete. Em tom baixo, o pré-candidato à Presidência da República evitou comemorar a derrota de Messias de maneira muito explícita e preferiu defini-la como “reposicionamento do Senado perante a opinião pública”.
A senadora Eliziane Gama (MA), recém-filiada ao PT, passou por Flávio e caminhava visivelmente atônita de volta ao gabinete. “Estou impactada”, resumiu à coluna.
Randolfe Rodrigues (PT-AP), líder do governo no Congresso, já executava a ordem do Planalto: minimizar a derrota acachapante. Afirmou que “de forma alguma” poderia ter dito antes, mas admitiu que o governo se preparava para o pior: “Desde o começo, tínhamos ciência de que seria difícil.”
Esse “começo” remonta a novembro do ano passado, quando Lula anunciou Jorge Messias. Nunca um indicado ao STF esperou tanto para ser sabatinado. Nunca, desde o governo de Floriano Peixoto, mais de 130 anos atrás, um indicado ao STF havia sido rejeitado.
Empurrado em uma cadeira de rodas, o senador Magno Malta (PL-ES) ironizava: “Vai faltar Lexotan nas farmácias de Brasília hoje”. Perto dele, um pastor ativista gravava um vídeo no celular, gritando “fora, Lula” e “soltem Bolsonaro”.
Dentro do plenário, deputados do PL e de outros partidos da oposição se abraçavam, gravavam vídeos e decretavam, nas redes, “o fim do governo Lula”.
Na sala onde Messias acompanhava a sessão, o clima era realmente de velório. Integrantes da tropa de choque montada pelo governo chegavam em silêncio. Entre eles, o ministro Wellington Dias (Desenvolvimento Social), que se licenciara para votar.
O deputado Cezinha da Madureira (PL-SP), próximo de Messias e de André Mendonça — os três são evangélicos —, foi o primeiro a sair. “Ele está tranquilo”, disse à coluna, sem muita convicção.
Coube ao senador Weverton Rocha (PDT-MA), relator da indicação e muito próximo de Alcolumbre, encarar os jornalistas. Exausto, jogou a derrota no colo do governo. Weverton ecoou a leitura de Flávio Bolsonaro: senadores, em ano eleitoral, “mandaram um recado”. “Impuseram derrota a uma pessoa que nada tinha a ver com o processo eleitoral”, concluiu.
Messias tentou sair discretamente, sem sucesso. Menos nervoso do que na sabatina, quando chegou a se emocionar algumas vezes, limitou-se ao protocolo e afirmou que o Senado é soberano. Entre abraços, deixou o prédio, não rumo à festa que havia sido planejada para uma aprovação que não veio, mas para encontrar o presidente Lula e tentar buscar respostas.
(PLATOBR)