“Não tenho nenhum compromisso, nem de votar, zero compromisso. Está desfeito qualquer tipo de compromisso que a gente tinha”. A fala de Ivo Gomes (PSB) não é um desabafo isolado nem retórica de rádio. Ela precisa ser lida como sinal político, daqueles que costumam anteceder movimentos maiores… e mais silenciosos… no tabuleiro do Ceará.
Ao declarar “compromisso zero” com a reeleição do governador Elmano de Freitas (PT), Ivo rompe publicamente com um arranjo que ele próprio ajudou a construir em 2022. Não é pouca coisa. Naquela eleição, o então prefeito de Sobral foi peça central na engrenagem que garantiu a vitória de Elmano no primeiro turno e impôs uma derrota estratégica ao grupo de Roberto Cláudio, cuja candidatura ao Governo gerou o rompimento do camilo-petismo com a aliança até então hegemônica. No fim das contas, deu-se um resultado que redesenhou o poder no Estado e teve efeitos em cascata, inclusive na eleição municipal seguinte, quando José Sarto naufragou ainda no primeiro turno de Fortaleza.
“Por que eu vou estar com uma pessoa que por mim não tem nenhuma consideração? Que se alia a pessoas que só querem o meu mal? Não só querem, tentaram, como tentam diariamente me destruir. Para que vou estar ligado com pessoas que estão alinhadas com outro que é fascista. Porque o que é fascista? É uma pessoa que não acredita na divergência civilizada de ideias. Que acredita que o conflito tem que ser feito com violência”.
Quando Ivo diz que não faz sentido estar aliado a quem se associa a seus adversários diretos, indo além, ao usar o termo “fascista” para caracterizar esse campo, ele está delimitando claras fronteiras. Não apenas pessoais, mas políticas. Para bom entendedor, o recado é claro: há limites para a conciliação.
Mais relevante ainda é o subtexto. Ivo sempre caminhou em sintonia com o senador Cid Gomes, que, para muitos, é o mais brilhante estrategista da política do Ceará. Em 2022, os dois estiveram juntos nas decisões que levaram ao apoio a Elmano no plano estadual e a uma participação apens protocolar na campanha do irmão Ciro Gomes na disputa presidencial. Agora, ao afirmar sem hesitação que faria campanha para Ciro, Ivo recoloca o irmão no centro do jogo estadual. ”Claro que faria [campanha para Ciro], lógico que faria. O Ciro seria o melhor presidente que o Brasil teria, avalie o melhor governador do Ceará”
No “mercado político”, como se costuma dizer, a leitura é inevitável: se Ciro for candidato ao Governo do Ceará, a fala de Ivo abre a hipótese concreta de Cid seguir pelo mesmo caminho. Não como ruptura abrupta, mas como deslocamento gradual provocado, ironicamente por, digamos, uma escolha do próprio governo petista.
O PT, ao buscar ampliar sua base com alianças locais pragmáticas, corre o risco de tensionar demais uma relação que sempre foi sustentada mais por convergência estratégica do que por afinidade ideológica. A declaração de Ivo Gomes não fecha portas, mas acende um alerta. E, na política cearense, alertas raramente são ignorados sem custo.
Em síntese: não se trata apenas de Sobral. Trata-se de 2026. E o relógio, não tão silenciosamente, já está correndo.
(Fábio Campos / Focus)